Em tempos idos por estas paragens haveria muitos lobisomens.
Essas criaturas, por mal feitorias que haviam feito, ou por encantamentos que lhes tivessem colocado, tinham que andar a correr o fado.
Conta-se que um certo dia, lá para os lados de Valadares, existia um tal de Miguel Taranta. Homem forte e de bom porte, dizia-se sem medo de nada nem de ninguém.
Por alturas do milho, andava muito aborrecido, já que alguns animais entravam pelo milharal adentro e lhe “atrojavam” tudo.
Farto da fraca produção que teria, levantou-se certa noite de lua cheia para melhor ver, e escondeu-se num dos lados do terreno.
Algum tempo depois, ouviu um som de cães ao longe e a fugir à frente um cavalo.
Era belo esse cavalo e lutava com os cães que o tentavam morder.
O Taranta não podia ficar quieto... saltou do sítio onde estava escondido e, com a vara de junguir os bois, um a um foi escorraçando os cães.
Por azar, sem querer, picou o cavalo com a vara e este fugiu-lhe para o meio do milho.
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-Ai que desgraça! - pensou - deixa-me ir mas é atrás dele antes que me destrua o resto da plantação.
Mal entrou no terreno, viu a sela do animal e ainda com o açaime na boca um homem que se levantava.
O Miguel Taranta reconheceu o Homem, que lhe pediu segredo de quem era e lhe contou que finalmente lhe tinham quebrado o fado. Disse-lhe que enquanto fosse vivo nunca poderia dizer quem ele era senão morreria nessa mesma hora. Queria, contudo, dar uma grande recompensa ao Taranta, mas ele nunca a aceitou.
Muitos anos se passaram e o Taranta envelheceu, a sua vida correu-lhe sempre de feição e sempre que precisava alguém o ajudava. Já velhinho na hora da morte, porque não conseguia partir, chamou o padre e contou-lhe o segredo, nesse preciso momento sorriu e partiu.